sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Pedaços Amargos

Minha idade na época era 11 anos. Sempre via minha mãe matando galinha e tinha muita dó da coitada. Pra começar a preparar a galinha ela colocava água pra ferver, quando estava em ebulição ela pegava a galinha cadáver e deixava um pouco na água quente para amolecer as penas, então depois ia retirando bem rápido. Ela falava que tinha que ser rápido, para não ficar penugem, uns pedacinho encrustado de pena. E depois que toda pena era retirada, lavava bem a galinha e depois começava a cortar. Sempre, pelas articulações.
Colocava na panela os pedaços e adicionava vários temperos, deixava refogar bem e depois adicionava água, e a gente se esbaldava. Isso no tempo das vacas gordas.
Ah, esqueci de algo, antes de tudo, a galinha ficava amarrada pelos pés, embaixo da mesa. Eu  sempre ficava conversando com ela. Depois minha mãe pegava a galinha amarrada pelos pés e colocava seus pés sobre as asas da mesma, e assim minha mãe cortava o pescoço da galinha, enquanto isso o sangue ia caindo dentro do prato. A galinha se debatía até morrer.
Minha mãe, como sempre tinha ido trabalhar. Ela ficava o dia todo fora. Meu padrasto era pedreiro trabalhava até as 16:00horas e chegava em casa por volta das 18:horas. Naquele fatídico dia ele chegou as 19:horas e com uma galinha debaixo do braço, e já foi ordenando: _Quero que tú faça, essa galinha! E aí de tú se não fizer direito, eu te arrebento!
Eu fiquei tremendo de medo, e pensei, como faria para cozinhar aquele frango?
Ele já estava um pouco bêbado, e saiu para beber mais pinga no bar. Fiquei as voltas com a galinha. O que fazer? Primeiro pús água na chaleira para ferver, depois, como não conseguí matar a galinha, pois tinha dó, fiz o pior, coloquei a pobre dentro da panela de água quente, e ela de um salto, caiu no chão e fugiu para o quintal. Eu e meus irmãos corremos feitos malucos atras da galinha, que espertamente fugia apavorada. Finalmente conseguimos pegá-la. e tive a idéia de levá-la para a minha vizinha Dôra. Ela mui gentilmente me salvou, matando a galinha de uma outra maneira, pegou-a pelos pés e destroncou-lhe o pescoço, rápidinho resolveu. Grande Amiga a Dôra!
Agradecí e levei a galinha pra casa. A água já estava fervendo a coloquei na panela de água fervente, e depenei direitinho, igualzinha a minha mãe. Depois cortei da melhor maneira possível, porém cometí um grave engano, estourei o fel da galinha. Acho que o fel é a bile da galinha. Então começou o meu desespero. Tentei, de várias meneiras limpar bem a galinha para sair o amargo, pena que não conseguí. Então achei que o que poderia me salvar era por tempero. Temperei o mais que pude, só que não tive sucesso, a galinha continuou amargando. E amargava como fel. Ficou muito ruim. 
Quando minha mãe chegou ficou contente, por achar a galinha pronta, só que ao comer achou que estava péssima pra se comer. Brigou comigo, disse que não sabia como eu não havia aprendido a fazer uma galinha. Meu padrasto ficou uma fera, e só não me agrediu, pois estava impossibilitado, tal era o nível etílico em seu sangue. No dia seguinte, minha mãe teve jogar fora a galinha, pois estava ruim de comer aquilo! 


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