Estou trabalhando vinte dois anos na saúde pública, já vi coisas que me deixaram alegres e outras que me marcaram o coração, porém tem algo que nunca vou esquecer o medo de morrer de alguns acabam com o meu dia. O amor de outros me deixa mais forte e com vontade de seguir.
A morte tem várias fases, e uma delas me deixa perplexa, é a fase final. Chorei muitas vezes por pessoas que eu cuidei e tiveram que partir. Existem pessoas que são verdadeiros exemplos de vida, e não conseguimos deixar de admirá-los e até amá-los como se fossem de nossas famílias.
Certa vez um cliente me chamou e pediu para que eu chamasse o médico. Fui ao telefone bipei o plantonista e fiquei esperando. Dez minutos depois o médico me atendeu... doutor tenho um paciente que está lhe solicitando. E ao falar o nome do paciente o médico me disse que era um paciente que estava em cuidados paliativos e que se parasse não era para fazer nada. Eu sei que muitas vezes não tem o que fazer mesmo, eu sei que todos investem em tudo até chegar num diagnóstico desses, más eu não consigo engolir tudo isso em algumas situações. Bem só sei que minha conversa com o médico não deu em nada, e quando voltei para o quarto o paciente estava morto, me sentí totalmente impotente, e chorei um choro triste, com as lágrimas quente da dor da perda, não sei se foi porque a pouco tempo eu tinha perdido a minha mãe.
Eu não consigo entender o porque de certas pessoas deixarem os seus doentinhos no hospital. Ele não tem mais nada, nem a esperança de vida, porque os parentes abandonam os seus doentes? Nós da saúde sofremos com o descaso de pessoas que não tem amor nenhum e abandonam os doentes, não vão visitar. Eu não quero ser abandonada.
Também penso que o egoísmo é tão grande, e que a grande maioria das pessoas estão preocupadas com os seus afazeres, com o seu trabalho, com a sua casa, com as suas roupas, com as suas unhas, com o seu cabeleireiro, com o seu baile, com a sua dança, com a sua mudança, com a sua falta de esperança, que não sobra tempo para ir visitar o seu parente, dar uma palavra de conforto, de caminhar pelos corredores do hospital. Não, não tenho tempo! E o seu pai, mãe, irmã sei lá, aquele que um dia foi importante pra você, que um dia foi amado ou não fica abandonado á própria sorte. Deixe tudo de lado e vá visitar o seu parente.
Muita gente trabalha a vida toda em busca de conseguir uma casa, em formar seus filhos, e depois morrem totalmente só em um leito de hospital. Que vida esquisita? Será que merecem passar por tudo isso? O que fizeram no passado para merecer uma vida assim? Outros são exemplos para todos. Mães que ficam ao lado de seus filhos até o último suspiro. Filhos queridos e bons que tratam os pais com tanto carinho que a gente até se engrandece ao ver tanta bondade. Eu não tenho medo de morrer. Tenho muito medo de sofrer.
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