Fomos morar no Jardim Angêla , bairro bem pobre, da zona Zul. Em 1970 eu tinha 11 anos de idade, e já tinha tantas obrigações. Minha mãe ainda trabalhava de diarista, meu padrasto ainda ficava bêbado, todos os dias. Eu ficava em casa o dia inteiro, cuidando dos meus irmãos que agora eram 5. Minha mãe aguardava a vinda do sétimo filho. O nosso banheiro era feio. Ficava lá no quintal, parecia uma casinha; dentro tinha um buraco imenso que foi cavado pelo Dedé (meu padrasto) e umas tábuas uma em cima da outra, colocadas de uma maneira ...bem de qualquer jeito...ficava um buraco que era para desprezarmos as nossas funções fisiológicas. A noite não havia luz no quintal. Eu tinha medo de ir no banheiro. Na verdade, tinha medo de cair no buraco de detritos. O cheiro era nojento, muito fétido. e todas as vezes que eu tinha que ir lá, me sentia muito mau. Não tínhamos agua encanada. No quintal também havia um poço artesiano, onde nós, para beber água, precisavámos, tirar do poço com um balde, puxando por uma manivela. Eu tirava água para dar banho nos meus irmãos, para fazer comida. O chão da cozinha era de terra batida, ainda bem que não precisava lavar. Eu lavava as louças com água do poço. Enfim, para fazer qualquer coisa tinha que retirar a água do poço. Imagine uma criança tendo tanta coisa pra fazer. Muitas vezes eu ficava na rua brincando de corda, mamãe polenta, de mãe rica e mãe pobre. Brincava até corrida. Quando estava perto da minha mãe chegar do trabalho: lá ia eu correndo arrumar a casa, lavar as louças e dar banho nos meus irmãos. Uma vez meu cachorro caiu no poço. Foi muito triste. Eu chorava pois acreditava que ele estava morto, porém;ao gritar: Bidú! Bídú! O coitadinho começou a latir dentro do poço. Que alegria! Agora tinha que convencê-lo a entrar no balde pra puxá-lo pra cima. Ficávamos eu e o Beto e o Carlos gritando: entra cachorro bobo, dentro do balde. E ele dentro do poço, latia feito um alucinado, e nada de entrar no balde. Tive uma idéia: Descer meu irmão lá pra baixo. Conversei com ele. E pedi pra ter cuidado, não se afogar, e assim foi. Quando meu irmão chegou lá dentro do poço, ele pôs o cachorro no balde e eu puxei para cima. Depois com a ajuda de alguns meninos do bairro puxamos também, o meu irmão. Que medo! Que dia! Bem, e como se não bastasse tudo isso , meu padrasto ao chegar ainda por qualquer coisa batia na minha mãe.Certa vez depois de um ataque de fúria começou a dar socos na minha mãe. Eu peguei uma garrafa e bati nas costas dele. O danados e virou com tudo e me deu um socasso e fui parar na parede. Depois do nada o peste dormia.
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