sexta-feira, 27 de maio de 2011

Pedaços das lembranças saindo desconectados.

Eu fiquei vários anos morando e cuidando da Dona Maximina, o salário era mínimo, mais eu coitada (Filha da Fome) nem me preocupava com isso. O problema foi que fiquei uns 17 anos com a família sem registro na carteira, más na época, eu também não me importava. Chegou um momento que não dava mais pra continuar cuidando dela na Vila Carrão, ela não ficava dentro de casa, a todo momento saia pra fora, já estava ficando ruim da memória, não se lembrava nem mais, quem era eu. Os filhos nos levaram para morar na casa deles. Eles eram casados com as mulheres mais maravilhosas do mundo. A dona Maria espôsa do filho de dona Maximina, fazia a melhor comida que alguém poderia comer. E os doces? E as compotas? A dona Albina além de ser funcionária pública da Secretaria da Fazenda, era uma pessoa maravilhosa. A dona Albina me ensinou tudo que eu sei e um pouquinho mais. Na casa da dona Albina, lá na Bela Vista eu ficava cuidando da vó, assim eu a chamava depois de um tempo. Eu também ajudava a dona Albina na cosinha, e observava tudo o que ela fazia com atenção. Nessa convivência aprendi muitas coisas, a falar, a comer, a me vestir. Ela foi uma ótima professora. Certa vez ela preparou um belo almoço e eu me recusei a comer. Ela insistiu pra que eu comesse, porém eu não queria. Á noite a mesma coisa eu não quis comer. Ela me chamou e disse: come menina, você não pode ficar sem comer. Então delicadamente ela me pediu para explicar qual era o problema. Então chorando mostrei meus dentes para ela. Estavam todos cariados. Os dentes do fundo cabia um caroço de feijão, e como doía! Eu disse a ela que estava com vergonha de falar, porque o meu salário não ia dar para o dentista, então resolvi parar de comer. Dona Albina no dia seguinte me levou ao dentista, e trataram meus dentes em um mês. Minha boca ficou ótima. Que vida boa! Ai eu comia e comia. Na casa da dona Maria na vila Olimpia tinha uma goiabeira que eu adorava. Sempre que eu tinha um tempinho, subia lá no galho mais alto e ficava meditando. Eu e a dona Maximina passeávamos todos os dias pelo quintal. Minha mãe era diarista na casa. Na sexta-feira era dia de faxina, e á tarde a vó ficava na sala com a dona Maria e eu ajudava minha mãe a lavar o quintal. Em frente á casa da dona Maria tinha um rapaz que eu paquerava. Eu tinha uma paixão platônica.  Adorava lavar o quintal e ficar olhando para aquele lindo rapaz moreno de cabelos enroladinhos. Quando minha mãe terminava de limpar toda a casa. Partia para o Jardim Angêla, bairro que eu não tinha nem mais vontade de ir. E assim seguia a minha vida. Um  mês na vila Olímpia, e o outro na Bela Vista. A gente morava na rua Santo Amaro, pertinho da Praça da Bandeira. Do décimo andar eu paquerava o Anhagabaú. Que vista maravilhosa! Que sonho! Comida boa o dia todo, avó não dava mais tanto trabalho, pois a dona  Albina também ajudava a cuidar dela, e eu a auxiliava com o trabalho da casa. Um belo dia eu resolvi estudar. E pedi pra dona Maria, ela me disse que eu não poderia, pois quem cuidaria da vó? Então fui procurar uma escola e depois comuniquei que iria estudar. Ela não falou nada. Tudo bem. Quando fomos passar mais um mês na casa da dona Albina, eu pedi pra ela. E e assim comecei a estudar. Eu naquele momento só tinha a terceira série do ensino fundamental. Então resolvi me esforçar, e lia o dia todo. Quando a vó ia dormir eu estudava matemática, português, um pouquinho de ciências, só sei que a escola me deu uma prova e eu fui muito bem. me colocaram na quarta série do ensino fundamental. E me esforcei tanto, que era a melhor aluna da classe. Terminei o Ensino Fundamental.  Á noite dava  o jantar da vó, escovava a sua dentadura da arcada inferior. E partia para a escola que ficava lá na rua São Joaquim, na Liberdade. E assim por muitos anos.

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