_ Filha, uma criança não pode nascer sem ter pai. Depois você vai ficar falada. Ninguém vai respeitar você! Retrógrada, como eu era, pensei...tenho que casar com esse homem. Depois ele era boa pinta. Bonitão, falava bem. Tinha pinta de jornalista. Eu naquela época era uma completa retardada. Fazia tudo o que os outros falavam. Era uma completa imbecil. Apaixonada, parecia uma louca varrida. Sonhava com ele dia e noite. E ele nem aí. A única coisa que acredito, era que ele ficou feliz com a idéia do filho. Então, lá fui eu procurar casa, pra gente morar. Saí da Bela vista com destino ao Glicério. E alí na Rua: Helena Zerrener achei uma kit que foi a nossa primeira casa. Depois de alugada montamos a nossa residência. Moramos alí por algum tempo, e fomos um pouco felizes. Um dia o meu marido sofreu um acidente e foi parar no hospital Bandeirantes. Foi atropelado por um automóvel e sofreu traumatismo craniano. Ficou inconsciente, quando acordou perdeu a memória. Ele trabalhava naquela época na General Motors do Brasil. Ele trabalhava á noite. Naquele dia do acidente, ele havia saído para trabalhar. Então no outro dia, quando ele não chegou em casa, eu fiquei desesperada. Após procurá-lo em vários lugares, inclusive no IML, e até ir reconhecer um corpo lá, que tinha todas as características do meu marido. Fui conversar com uma médica amiga da gente, e patroa minha. Ela o encontrou no Hospital Bandeirantes. Fui até lá ele não me reconheceu, e estava deitado numa cama e nu. Eu imediatamente fizemos a alta pedida e o internamos no Hospital Alvorada. Afinal ele tinha convênio com a Sulamérica. Poucos dias depois ele teve alta. E assim fomos levando a vida. Já tínhamos o nosso primeiro filho, que era o xodó do meu marido.
Em 1989 eu participei de um concurso público, e dessa forma deixei de ser doméstica. Passei a ser Atendente de enfermagem. O meu filho não se adaptou na creche. Então, tive que arrumar alguém para cuidar dele em casa. Primeiro ele ficou com uma mulher que também tinha uma criança da mesma idade. Depois por eu não confiar na mesma, arranjei uma moça de nome Alda, que ele adorava. Ele era um pequeno prodígio. Era muito lindo e inteligente. O meu marido o ensinou a ler. O menino com 2 anos de idade lia qualquer coisa.
Trabalhando no Hospital das Clínicas, fiz o meu Ensino Médio e ganhei o curso de Auxiliar de enfermagem. Grávida da segunda filha. Mamamia! Eu andava estressada, nervosa, não tinha paciência com nada. Vivia pra trabalhar e estudar. Minha irmã tadinha, ficava em casa cuidando de tudo para mim. Ela era uma adolescente, mas, me ajudava muito. Quando eu entrei no HC e recebi o meu primeiro salário, foi o dia mais feliz da minha vida. Depois recebi vale-refeição, vale-transporte, uma cesta básica maravilhosa, recebi dois talões de cheque do Banco Banespa e um cartão de crédito. Fiquei doidinha. Nunca tinha visto tanta coisa! Quando a cesta básica chegou em casa eu não sabia o que fazer de tanta felicidade. Nossa! Quanta comida! Fiquei felicíssima! Sai gastando como se não houvesse amanhã. Eu pagava o meu aluguel, e gastava pra caramba. Morar no Glicério era um inferno. Alí era chamado de Favela Vertical. No Natal o povo jogava lixo a noite toda para comemorar a chegada do mesmo. A meia noite do Ano Novo era a mesma coisa! Aquilo era o inferno na terra. Eu e o meu marido já não éramos mais os mesmos. Ele foi demitido da General Motors e agora eu ganhava mais do que ele. Nossas brigas eram constantes. Ele era bem mais inteligente do que eu, e a todo momento fazia questão de me por pra baixo. Parece que a alegria dele era me atormentar, espezinhar.
- Fomos morar na Casa Verde Alta, eu arranjei uma casa lá, porque o aluguel ficou muito caro no Glicério. E é claro que com meus gastos o que eu poderia fazer? Então fomos morar na rua Antonio Antunes Maciel. Ficamos um bom tempo lá e as coisas iam ficando cada vez piores. Eu e o meu marido nos separamos, As brigas constantes. Ele desempregado, eu trabalhando e estudando. Minha irmã que cuidava dos meus filhos. Eu não tinha tempo pra nada. Enfim minha vida estava um inferno! A separação era oportuna.
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