quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Professora Julieta

Filha da fome, como já dizia Graciliano Ramos, Em Vidas Secas. Também fui vítima da fome. Hoje dou o maior valor a qualquer coisa que se mastiga. Pobre sem nome, apelido Nenê. Entra na escola e é aceita devido a piedade da diretora. Vai pra escola com fome, só pensa na hora do recreio. Cada minuto que passa é um tédio, aguarda ansiosamente a hora de sair da sala e ficar na fila da merenda. Hoje vão dar macarrão com salsicha. Adoro salsicha minha mãe nunca tem dinheiro pra comprar! Aprendí a gostar de salsicha na escola. Amanhã tem chocolate com bolachas de leite, amanhã vão dar arroz doce, tão docinho, uma delícia. Entrava na fila várias vezes. A tia da merenda tinha dó de mim e dava sem reclamar. Entrei em uma sala que era muito forte pra mim, tive que ir pra outra classe. Lá a professora que era um diabo me colocou na fileira dos burros, pra ela eu era incapacitada, tinha dificuldade para assimilar a lição, a explicação, não conseguia interpretar o que era me ensinado. A Professora Julieta não me dava a mínima, acho que porque eu era muito pobre, paupérrima. Acho que era por causada minha cabeça que estava empestada de piolhos. Não podia levantar a mão para perguntar algo, porque a professora não respondia.
Nas Férias
Quando começavam as férias tinha uma época que o governo oferecia merenda para os alunos. Eu, claro, sempre que podia ia comer na escola. As vezes levava até um pouco de merenda para casa. Em casa não tinha nada pra comer. Quando chegava a hora do lanche eu corría pra escola e matava a fome.

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