quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Um Dia Fui Criança

Quando criança, por volta de uns 10 anos de idade, meu padrasto tinha uma mania que eu odiava. Ele sempre dava ordens para que eu fosse comprar algo, e as vezes me mandava ir ao bar.
Naquele tempo os bares, chamados de empórios, vendiam algumas coisas em unidades. Hoje compramos pacotes de bombril, pacotes de sabão em barra, compramos pacotes de fosforos. Antes íamos no bar e pedíamos uma caixa de fósforos. Muitas vezes minha mãe mandava eu ir ao bar, para comprar uma cabeça de alho. Uma cebola. Um ovo, dois ovos. Éramos tão pobres que mercado era pra ricos, Comprávamos só o necessário.
Então meu padrasto pedia para que eu fosse ao bar, empório, boteco, sei lá... e ele cuspia no chão e dizia: -Se você voltar, e o cuspe secar...vai apanhar! Eu saía em desabalada carreira. Corría uns 600 metros pra comprar o que ele pedia e voltava rapidinho. Tinha tanto medo de meu padrasto, que qualquer que fosse o pedido eu obedecia, e voltava sempre com a compra certa.
Uma certa vez meu padrasto me mandou comprar, pão, farinha de mandióca, açucar e leite. Eu repetia as palavras em sílabas, bem alto, para não esquecer. Nós quase sempre não tínhamos dinheiro pra nada, então quando me mandava comprar algo que fosse também pra gente, ficava até alegre, e corría. Repetindo bem alto: _ Pão,  fa-ri nha- de- man di- ó-ca, a-çu-car, lei-te. A única coisa que tinha pavor era de perder o dinheiro.
Um dia, perdí o dinheiro na rua, procurei, mais não encontrei. Não teve outro jeito, tive que voltar  pra casa  e enfrentar o meu padrasto, que me espancou. Me agrediu com um fio de ferro. A dor era intensa, principalmente nas mãos e costas. Rezava para que Deus castigasse ele, pela maldade. Um dia minha mãe e ele discutiram e os dois gritavam, ele bateu na minha mãe. Os vizinhos chamaram a polícia. Demoraram tanto que quando a polícia chegou, meu padrasto estava dormindo. Minha mãe abriu a porta e eles entraram e foram dando uns petelecos nele. Minha mãe começou a gritar e pedir para que não machucassem o se marido. Foram embora e disseram: _ Dona a senhora merece!
 Eu não sei o que minha mãe via naquele bêbado.

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